Leishmaniose Felina

Drª Natália Lemos Arruda

A leishmaniose é uma enfermidade causada por protozoários do gênero Leishmania, que pode causar a Leishmaniose Visceral (LV) ou Leishmaniose Tegumentar (LT). Os hospedeiros vertebrados incluem animais silvestres (roedores, gambás, tamanduás, canídeos, primatas, preguiças), animais domésticos (cães e equinos) e o homem. Há discordância na literatura a respeito da importância dos felídeos domésticos quanto a serem reservatórios da Leishmania spp.

Os cães estão envolvidos na infecção humana da leishmaniose visceral, uma vez que atuam como hospedeiros reservatórios do parasita. Já o papel do gato (domésticos ou silvestres), não está bem elucidado, mas sabe-se que esses podem infectar-se naturalmente e manifestar a leishmaniose tegumentar ou visceral. Os vetores que transmitem a Leishmania spp pertencem ao gênero Lutzomya sp, encontrados em maior frequência nas Américas.

Apesar de considerar que a ocorrência de leishmaniose felina seja rara, o número de relatos de caso em todo o mundo aumentou. O primeiro caso de Leishmaniose Felina foi diagnosticado em 1912 na Argélia. A partir de então, ocorreram diversos relatos de casos em todo o mundo, incluindo Portugal, Itália, França, Espanha, Grécia, Israel, Egito, Suíça, Peru, Venezuela, Irã, EUA e Guiana Francesa. A leishmaniose felina é relatada nos continentes europeu, americano, asiático e africano. No início, o diagnóstico era realizado de forma acidental, já que esse animal não está incluído na epidemiologia da doença. Além dos felinos domésticos, existem relatos de infecção natural por Leishmania spp em onça parda (Puma concolor), onça pintada (Panthera onca), jaguatirica (Leopardus pardalis) e leão (Panthera leo).

Estudos realizados através de sequenciamento genético comprovaram que os parasitas que estavam no felino eram os mesmos dos intestinos dos flebótomos, comprovando a transmissibilidade do parasito. Outros têm sido elaborados de forma a esclarecer a interação entre flebótomo e felinos. Ensaios parasitológicos, moleculares e sorológicos têm sido conduzidos em diversas partes do mundo e várias técnicas têm sido utilizadas para detectar os gatos infectados pelo protozoário. A leishmaniose cutânea é forma mais descrita nas literaturas em diversos países. Entretanto, os gatos infectados podem ter envolvimento de linfonodos e sangue, indicando que pode haver disseminação sistêmica dos parasitos nos felinos. Em infecções experimentais, gatos inoculados com promastigotas de Leishmania infantum não apresentaram infecção pelo parasita. Felinos infectados com Leishmania braziliensis e Leishmania amazonensis também não demonstraram dispersão do parasito. Uma pesquisa indicou que gatos infectados naturalmente com Leishmania infantum apresentavam baixos títulos sorológicos com posterior diminuição até a soronegatividade. Atribui-se a essa variação alguns fatores, como: sensibilidade desconhecida das técnicas sorológicas quando utilizadas em felinos, poucas informações sobre a resposta humoral em gatos no curso da doença e resistência natural dessa espécie à Leishmania spp. Alguns autores sugerem que gatos possuem um certo grau de resistência natural a essa enfermidade.  A leishmaniose felina pode estar associada a fatores imunossupressores como o Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV), Vírus da Leucemia Felina (FeLV), Peritonite Infecciosa Felina (PIF) e estresse. Muitos trabalhos verificaram uma associação entre animais infectados com esses agentes e que apresentaram anticorpos anti-Leishmania. Entretanto, alguns resultados de inquéritos sorológicos sugerem não haver correlação entre infecções por FIV/FeLV/PIF e infecção por Leishmania spp, ficando essa questão ainda muito controversa e necessitando de maior investigação. A literatura descreve a sintomatologia em gatos como uma infecção subclínica com raras manifestações de lesão e nodulação na pele, mas outros sinais podem estar presentes. Os sinais clínicos podem incluir febre, letargia, anorexia, vômitos, diarreia, perda de peso, emaciação, desidratação, poliúria e polidipsia, mucosas pálidas, linfoadenomegalia, hepato e esplenomegalia e desordens respiratórias, sintomas esses inespecíficos e que podem mimetizar diversas outras afecções. Podem ocorrer alterações cutâneas tanto na forma visceral quanto na tegumentar e essas manifestam-se como eritema, pruriginoso ou não, alopecias, descamações, pápula, nódulos, ulcerações e crostas.  Os achados laboratoriais hematológicos incluem anemia (regenerativa ou não regenerativa), leucopenia, leucocitose por neutrofilia, eosinofilia, monocitose, linfócitos reativos, trombocitopenia e presença de macroplaquetas. Na bioquímica sérica, observa-se hiperproteinemia com aumento de globulinas e diminuição de albumina, aumento de ureia, creatinina, bilirrubinas, ALT e AST, alterações essas similares àquelas observadas em cães. Os testes imunoistoquímicos das lesões revelam grande quantidade de linfócitos, macrófagos e células gigantes, sugerindo boa resposta imune local, que pode ser responsável pelo controle da infecção nessa espécie.

Devido os sinais clínicos serem inespecíficos e mimetizarem outras doenças, além do gato não estar incluído na epidemiologia da doença e ter uma resposta imune inespecífica, o diagnóstico torna-se uma barreira. Os métodos sorológicos podem não ser eficientes para a detecção da infecção em felinos, porque a resposta imunológica pode variar muito, mas apesar disso, tem sido vinculado muito o uso da Reação de Imunoflorescência Indireta (RIFI) e Ensaio Imunoenzimático (ELISA). Os inquéritos revelam uma baixa soroprevalência, que pode estar associada a uma resistência natural à infecção na espécie felina. O parasitológico direto, feito após punção de linfonodo por agulha fina ou histopatológico, pode ser um mecanismo eficaz para o direcionamento diagnóstico, sendo utilizado em muitos casos de leishmaniose felina citados na literatura. A limitação dessa técnica reside em não ser possível identificar a espécie causadora do processo, pois apenas permite a visualização de formas amastigotas de Leishmania spp. A PCR tem sido utilizada com frequência na confirmação dos casos clínicos e na identificação da espécie envolvida. O tratamento parece não ser eficiente em gatos, pois a resposta clínica à medicação é variável, com alguns apresentando melhora e outros não havendo resposta. Apesar de os gatos não estarem envolvidos na cadeia de transmissão das leishmanioses, a opção de coleiras repelentes pode ser indicada para profilaxia. Percebe-se assim que são necessários mais estudos para responder às diversas perguntas e para esclarecer qual a real prevalência da infecção nessa espécie. A leishmaniose deve ser incluída no diagnóstico diferencial de enfermidades felinas, principalmente em áreas endêmicas da leishmaniose. Ainda que existam trabalhos indicando a soroprevalência de felinos provenientes das áreas endêmicas, não está completamente elucidado se ocorre falha na detecção de anticorpos ou se a detecção é limitada pelo fato desses animais apresentarem alguma resistência a essa infecção. O fato de ser uma espécie crescente como pet evidencia a necessidade a identificação da sua participação no ciclo epidemiológico dessa doença.

MATERIAL COD/EXAMES PRAZO
Sangue total em tubo de tampa vermelha Cód 290 – Leishmaniose felina (ELISA + RIFI) 2
Sangue total em tubo de tampa vermelha Cód 553 – Leishmaniose felina diluição total 2
Medula óssea em EDTA, punção de linfonodo, fragmento de órgãos (sem formol) Cód 483 – Leishmania infantum (chagasi) PCR Real Time Qualitativo 3
Medula óssea em EDTA, punção de linfonodo, fragmento de órgãos (sem formol) Cód 680 – Leishmania infantum (chagasi) PCR Real Time Quantitativo 3
Fragmento de pele (em formol); fragmento de órgãos (em formol) Cód 680 – Leishmania infantum (chagasi) PCR Real Time Quantitativo 7

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