Animal healthcare professional hand holding syringe with vaccine for a small puppy dog in the background - close up, shallow depth

Leishmaniose: vacina, em fase de testes, pode ser saída para doença canina.

Nova vacina pode não apenas imunizar, como também tratar cães infectados pelo mosquito-palha

Até o ano de 2016, tutores de cães diagnosticados com leishmaniose eram orientados a sacrificar seus pets. Uma realidade que mudou apenas timidamente desde então, pois, naquele ano, uma norma técnica passou a permitir a importação de um medicamento e, assim, um novo tratamento para a doença parasitária tornou-se opção para o cuidado dos cães infectados. Todavia, além de caro, o procedimento não leva à cura definitiva, e sua efetividade para o controle do protozoário divide opiniões de especialistas. Agravante, esta é uma doença que pode ser transmitida de animais para humanos, sendo o mosquito-palha o vetor do parasita. Por tratar-se de uma grave zoonose, ainda hoje, o Ministério da Saúde orienta que cães infectados recebam a eutanásia.

Agora, no entanto, se prenuncia outro final – este, sim, feliz – na luta contra a leishmaniose. Pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) desenvolveram uma nova vacina, capaz não só de imunizar os animais, como também de tratá-los, levando à inédita cura da doença. “Em breve, vamos iniciar a última fase de testes para verificar se a vacina é eficaz, reduzindo o contágio canino. Se tivermos sucesso, teremos cumprido os requisitos para que o produto seja registrado e comercializado”, expõe Alexandre Reis, coordenador do Grupo de Pesquisa em Imunopatologia das Leishmanioses da Nupeb/Ufop. Ele avalia que “em um ou dois anos, a partir desses resultados, a tecnologia já deve estar disponível para o mercado”.

Professor de parasitologia clínica na Escola de Farmácia da Ufop, Reis vem coordenando este projeto há 20 anos. Otimista diante dos resultados mensurados até agora, ele acredita que, com a eficácia desejada e por ser de baixo custo, a vacina pode chamar atenção do poder público e, assim, o país ganhe calendários de campanhas de vacinação contra a leishmaniose. “A única forma de conter a doença é com ações que abarquem muitas frentes realizadas visando a grande volume populacional”, analisa.

Alerta. Ao se debruçar sobre o número de cães contagiados pelo parasita do gênero Leishmania em BH, a preocupação com o desenvolvimento de campanhas massivas se faz óbvio: em 2018, foram 6.591 casos registrados pela Secretaria Municipal de Saúde. Entre eles estava Valente, o cachorrinho resgatado das ruas pela servidora pública Elvy Maria, 51.

“Era um dia chuvoso, e eu voltava de uma caminhada quando ele me seguiu”, lembra, ainda um pouco afetada pela aparência do bichinho, que teria algo em torno de 8 meses: feridas eram vistas em seus olhos, focinho e orelhas, ele estava magro e tinha pelagem rarefeita. “Vi, imediatamente, que ele tinha aparência de estar doente”. Adicionados a um andar manco e unhas que crescem exageradamente e de maneira deformada, todos os sinais observados são sintomas da leishmaniose viral. Todavia, em alguns animais, a doença é assintomática.

Depois de levar Valente para casa, Elvy, no dia seguinte, foi a uma clínica veterinária. A bateria de exames confirmou seus temores – e duas alternativas foram oferecidas: a eutanásia ou o tratamento, que, além de caro – cerca de R$ 2.500 – , não garantiria a cura completa do animal. Mesmo assim, apegada que já estava, ela optou pela tentativa de salvá-lo.

Valente se recuperou bem e, passado mais de um ano, está clinicamente curado – isto é, embora ainda seja hospedeiro da doença, não sofre com seus sintomas. Por isso, a tutora leva seu pet para novas consultas a cada quatro meses para controle da carga parasitária no animal. Além desse cuidado, Elvy adotou coleiras com inseticidas, que são trocadas a cada quatro meses. Como reside em uma casa com quintal, no bairro Concórdia, passou a ser cuidadosa, removendo constantemente os materiais orgânicos.

Fazendo o dever de casa, a servidora pública busca criar um ambiente mais seguro para si, seus parentes e vizinhos e também para o seu pet. Mas, é claro, o cuidado individual não é suficiente. A regional em que vive, a Nordeste, como também nas regionais de Venda Nova, Norte e Noroeste, concentram as maiores taxas de positividade canina para a leishmaniose, conforme dados fornecidos pela Prefeitura de Belo Horizonte.

Tratamento não é consenso entre especialistas

A leishmaniose visceral canina é, ainda hoje, uma doença incurável. Mas, no Brasil, é possível tratar os cães infectados com um medicamento que tem como componente a miltefosina. Professora da Escola de Veterinária da UFMG, Camila Bastos explica que, no país, é proibido o uso de fármacos usados para o tratamento humano em animais. Porém, “como o Milteforan não é usado em pessoas, no Brasil, seu uso em cães foi autorizado”.

O problema é que, importada, essa é uma solução cara, e, além disso, “não existem muitos trabalhos científicos que comprovam uma eficiência alta, considerando que a doença pode acometer seres humanos a partir de um cão infectado”. Um destes poucos estudos disponíveis foi publicado neste ano. A pesquisa acompanhou 35 cachorros e identificou bons resultados para melhora clínica (94,2%) e para diminuição da carga parasitária na pele (98,7%). Já o índice de redução da transmissão da doença para o vetor teve redução mais tímida (74,2%). “Importante lembrar: a manutenção do risco de contaminação do vetor por uma parcela significativa de cães que estão em tratamento mantém o estado de alerta a respeito da leishmaniose”.

“Com o tratamento, a gente busca controlar a carga parasitária para o menor valor possível, para que esse paciente não seja reservatório transmissor da doença”, observa Priscilla Lacerda, médica veterinária especialista em clínica de pequenos animais, reforçando que há necessidade de controle contínuo, de quatro em quatro meses, para o resto da vida do pet infectado.

Priscilla observa que o tratamento é oneroso: “Além da despesa com o Milteforan (em torno de R$ 1.000), o tutor vai ter custo de cerca de R$ 1.500 na fase inicial do tratamento”. Mais uma razão para se cercar de cuidados preventivos. “A vacina anual já existente contra a leishmaniose visceral – que é um reforço, porém não é capaz de evitar o contágio em 100% dos casos –, coleira com inseticida trocada a cada quatro meses, passeios evitando horários de penumbra e ambiente limpo e dedetizado são atitudes que, associadas, vão evitar o contágio da doença”, expõe. No caso de cães já infectados, com exceção da vacinação anual, são necessários todos os cuidados citados, reforça a médica veterinária.

Questionamentos. Para Alexandre Reis, professor de parasitologia clínica da Escola de Farmácia da Ufop, ainda não há literatura científica suficiente para cravar que o tratamento seja eficiente para evitar que o cão deixe de transmitir o parasita para o mosquito vetor.

Mas esta não é a principal preocupação do pesquisador: “A miltefosina é uma droga que provoca muitas modificações genéticas e, como os cachorros metabolizam os fármacos de forma diferente da nossa, o tratamento pode tornar o parasita resistente não apenas ao Milteforan, que não é usado em humanos, mas também em outras drogas usadas para tratar pessoas infectadas”.

Exame pode apontar falso resultado positivo

A identificação de casos de leishmaniose visceral em cães exige, no mínimo, dois exames diferentes, pois há risco de falsos resultados positivos para a doença. Uma situação que assombrou a aposentada Janete Luciana, 66, que é tutora de quatro cachorrinhas – a mais velha está com a família há pelo menos 15 anos.

Foi um susto só quando fiscais da Prefeitura de Belo Horizonte comunicaram que o resultado para a doença parasitária era positivo para três delas. “Uma semana depois de colher o sangue, vieram com o resultado e já até falaram em marcar o recolhimento delas, que seriam sacrificadas”, diz, reconhecendo que a reação imediata foi chorar junto com as cachorrinhas. “Doeu no coração”, lembra.

A família, então, contestou o resultado e repetiu os exames em duas clínicas particulares. Os resultados, para alívio geral, deram negativos.
Janete conta que, depois da desagradável surpresa, adotou medidas para prevenir que suas pets sejam picadas. As coleiras com inseticidas, por exemplo, agora são presentes em sua casa – assim como citronelas, repelentes naturais que passaram a ser cultivadas no lugar.

Política pública

Exames. A Prefeitura de Belo Horizonte realiza exames para identificar casos de leishmaniose na residência de tutores de animais domésticos. A solicitação pode ser feita pelo telefone 156, pelo SAC-Web ou pelo aplicativo PBH App.

Duas fases. Os exames realizados são o teste de imunocromatográfico-TRI (triagem) e Ensaio Imunoenzimático-Elisa (confirmatório).

Contestação. Se o resultado for positivo, o tutor pode, ainda, repetir os testes em laboratórios privados pertencentes à rede de diagnóstico de leishmaniose de Minas Gerais.

Divergência. Se os resultados forem opostos, é oferecida coleta de exame de contraprova pela Prefeitura, sendo a amostra processada pela Fundação Ezequiel Dias, laboratório de referência nacional.

Recolhimento. Por fim, se confirmada a doença parasitária, a PBH oferece possibilidade de agendar o recolhimento do animal. Os fiscais também buscam informar dos riscos de manutenção de um cão soro reagente no domicílio.

Eutanásia. A prefeitura reforça que o Ministério da Saúde recomenda a eutanásia de todos os cães positivos para leishmaniose.

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